Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019
Coluna Falando de Economia - Douglas Pivatto

O mito da meia entrada

Publicada em 02/10/19 às 10:52h - 95 visualizações

por Douglas Pivatto


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              Muito se discute sobre políticas de preços. Há quem acredite que os preços devem flutuar livremente; há quem acredite que os preços devam ser tabelados; há, ainda, quem acredite que se possa construir faixa de preços para determinado público, seja ele decomposto em faixa etária, renda, localização. Na microeconomia (ramo da ciência econômica que estuda os agentes (indivíduos, empresas)), há um assunto que se chama discriminação de preços.

              Há várias formas de discriminação de preço. No chamado primeiro grau, é aquele que o leitor já reparou no preço de um bem, por exemplo um eletrônico, no dia do seu lançamento, e no mesmo produto um ano depois. Não são raros os casos em que a diferença é bem grande, não é mesmo? Pois é. Assim como há gente que aceita esperar um tempo até que o item chegue um valor que caiba no orçamento, também há gente que não aguenta esperar e já adquire logo de cara. Tudo certo. Comprador e vendedor ficam felizes.

              No chamado segundo grau, ocorrem aquelas promoções do tipo “leve 3, pague 2”, ou então “o segundo item sai por 50% de desconto”. Aqui é o que também ocorre nas compras de atacado e varejo. Hipermercados que vendem tanto no atacado quanto no varejo praticam esta política de preços, para que assim atinjam o maior número de consumidores.

              Agora vem onde se queria chegar: o terceiro grau da discriminação de preços. Aqui o vendedor descobre quem se dispõe a pagar menos, e quem se dispõe a pagar mais. É aqui que entra a famosa meia entrada, seja ela no cinema, no jogo de futebol, nas passagens de ônibus. Afinal, isso é bom ou é ruim? Por quê? Porque o fornecedor do produto ou serviço faz as contas do quanto deseja faturar, para cobrir seus custos e o negócio valer a pena. Toda informação se encontra no preço. Aqui eu observo que, assim como a meia entrada possui pontos negativos para o vendedor, que tem seu faturamento fatiado, também possui pontos negativos para quem não pode usufruir do benefício, porque este tem que cobrir a diferença daquele.

              Um exemplo: imagine que um ingresso custe, inicialmente, R$20. O estudante paga R$10. Não estudante, R$20. No entanto, suponha que o negócio valha a pena ao vendedor se nessas duas pessoas o faturamento fosse igual a R$40. O que o vendedor pode fazer: sobe o preço para R$30. Assim, o estudante paga R$15 não estudante, R$30, totalizando R$45. Agora vamos além.

              Uma vez, pude conversar com uma pessoa que trabalhou de cobrador em uma empresa de transporte coletivo, e ela fez a seguinte observação: “a linha universitária dá prejuízo”. Eu pensei na hora “mas como, se possui um grande fluxo de pessoas?”. Então foi-me dito o óbvio: “só vai estudante, tudo pagando meia, e sequer cobre os custos; a gente faz a linha porque é obrigado”. Outro exemplo é o do cinema: dependendo do filme, basicamente quem vai assistir são jovens, estudantes sejam eles colegiais ou universitários, (simplificando) todos pagando meia. Aqui não é “meia”, é a metade do dobro, pois se alguém que não é estudante se aventura a assistir a algum filme assim pagando a inteira, saiba que vai pagar o dobro do ingresso, digamos, normal, pois uma vez que um meio ingresso é concedido, alguém tem que custear a diferença.

              Aqui, além da discriminação de preços, descrita em manual, também há a distorção de preços. Quanto a discriminação de preços, é a teoria encontrando a prática. O problema é a distorção, pois acaba beneficiando quem não precisa (Caso de alguns estudantes, sabemos que há estudantes que, se não é pela meia entrada, teriam seu acesso a transporte, cultura e entretenimento dificultados. Isso é para outra oportunidade.), e acaba prejudicando quem gostaria de fazer algum programa diferente, como por exemplo, um trabalhador que queira levar sua esposa ao cinema. Eles vão ter que aceitar o fato de que estão custeando o ingresso de um estudante que talvez não precise do benefício, enquanto que o programa do casal sai mais caro que o imaginado.

              Aqui, quero deixar bem claro que a questão não é defender o fim de benefícios de meia entrada, pura e simplesmente. A questão é demonstrar como as distorções de preços deixam o sistema econômico menos eficiente, pois pode beneficiar poucos, que não precisam, além de prejudicar muitos, que poderiam ser frequentadores mais assíduos dos estabelecimentos, estimulando assim o consumo e a eficiência do mercado.




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